Sep
15

A internet muda a TV. Para melhor?

Autor: Cristina De Luca

Fonte: Blog circuitodeluca

Vivemos a era da convergência. Anos atrás achávamos que o computador ia ser o equipamento central das residências. Hoje, por uma série de movimentos de mercado, o televisor é o equipamento central das residências. E a maioria já tem entrada de internet e permite comunicação com qualquer tipo de dispositivo. Interagimos com ele através do controle remoto. Mas em alguns meses poderemos estar interagindo via o celular.

É fato. A internet já começou a mudar a TV. O consumidor decidiu consumir cada vez mais mídia digital e vem forçando mudanças do mercado. Quer interatividade. O mundo virou multi-screen. Para muita gente com quarenta anos ou mais pode parecer estranho pensar em um mundo no qual qualquer conteúdo deva, necessariamente, estar disponível para múltiplas telas (a do celular, a do computador, a da TV e a do cinema). Mas essa já é a realidade da geração Y, a geração hiper conectada.

Resultado: a oferta do serviço ficou mais complexa, com cada um querendo manter o seu quinhão na cadeia de produtos, principalmente para cobrir os investimentos obrigatórios no aumento de capacidade e capilaridade das próprias redes, para suportar a demanda.

Do lado do produtor de conteúdo, o alcance da propriedade começou a ser questionado. A remuneração também começou a mudar. O provedor do serviço passou a ser pressionado para remunerar todos os players que passaram a trafegar na sua rede, seja ela a rede broadcast, a banda larga fixa, a banda larga móvel, ou a rede de comércio de aplicativos, sabendo que o consumidor não está disposto a pagar mais pelo serviço convergente que recebe.

Em resumo, estamos assistindo a uma enorme mudança na cadeia de valor do vídeo. Mas essas mudanças teimam em ser mais lentas que as mudanças tecnológicas e de comportamento do consumidor.

De concreto mesmo, apenas o fato de que stakeholders que nunca trabalharam juntos em uma mesma cadeia de valor estão sendo obrigados a encarar seriamente o desafio de fazê-lo. Operador de telecomunicação, radiodifusor , provedor de conteúdo…. estão, todos, sendo forçados a alinhar seus interesses.

E aí…. Tome modelo de negócio. Há um para cada sabor.

O problema é que, além de ainda pouco compreendidos pelos consumidores, esses modelos convergentes que começam a surgir, aproximando broadcast e internet, continuam avançando pouco no quesito liberdade, o grande desejo do consumidor. Que liberdade? A de grade de programação. A da ampliação da variedade de oferta….

Vejamos as características de cada modelo já na mesa.

TV Digital aberta (SBTVD) – É, hoje um dos mais viáveis em países como o Brasil, onde há baixa penetração de banda larga e de TV paga e altíssima disseminação da TV aberta. É também o predileto dos radiodifusores, por manter o controle da interatividade, na maior parte dos casos, na mão das emissoras de TV. Os modelos de negócio que começam a surgir pressupõem a conjugação de interesses dos radiodifusores, das operadoras de telefonia fixas e móveis e dos fabricantes de equipamentos. Sem isso, a interatividade será sempre limitada.

Seu ponto forte é justamente capacidade de transmissão broadcast de dados. Já pensou distribuir, de uma única vez, pelo ar, o software do imposto de renda para milhões de televisores e conversores com HD para armazená-lo? Seu ponto fraco, por enquanto, é a falta da comunicação de dados bidirecional. Hoje, os canais de retorno possíveis são controlados pelas empresas de telecomunicações ou operadoras de TV a cabo. O que, na maioria dos casos, exige negociação e partilha de receita entre emissoras e operadoras de telefonia fixa e móvel. Será sempre assim? Provavelmente não. E a prova está nas experiências que já fazem uso dos canais de retorno disponíveis (a internet via cabo, por exemplo, ou o pacote de dados ilimitado da internet móvel).

Com a disponibilidade do acesso internet para comunicação de dados bidirecional, produtores de software e de equipamentos começam a vislumbrar também novas oportunidades de receita, além da mera venda de licenças e produtos. É o caso do StickerCenter, solução recém lançada pela Totvs e abraçada por parceiros como os produtores de aplicações  Hands e M4U e pela rede de supermercados Extra, inspirada no modelo de negócio da APP Store da Apple. E que já começa a despertar nos demais produtores de software o desejo de criação de uma opção, dizem mais democrática no desenvolvimento e disponibilidade de aplicativos, como a do Android Market, para lhe fazer frente.

Segundo explicam os próprios desenvolvedores do Stickcenter, o modelos de negócio desenhado por eles não prevê exclusividade para o fabricante “A” ou “B”, é todo baseado em um padrão (o Ginga, middleware do sistema brasileiro de Tv Digital). Desta forma também se assemelha ao modelo de negócios do Android Market. Sempre haverá um gatekeeper, e este direito é dado à aquele que coloca na prática as coisas que todos pensam que sabem fazer mas por um motivo ou outro nunca realizam. Exemplo: telefone 100% operado por toques na tela. A invenção já existia, porém bastou a Apple mostrar como deveria ser um telefone de toques na tela que o mundo inteiro se curvou a solução.

Broadband TV – É o modelo que mais agrada a indústria de recepção. Em especial, os fabricantes multinacionais como as coreanas Samsung e LG, pelos ganhos de escala que oferece, além do modelo de negócio sob o qual têm total controle. Pressupõe o acesso internet voa cabo. Para integrar o NetCast, que dá acesso aos conteúdos vindos da Internet (no caso, aqui no Brasil, conteúdos do Terra, UOL, Climatempo, Youtube, etc) é preciso fazer parceria com o fabricante.

Do ponto de vista do consumidor, é um modelo ilusório, já que eu acesso a esses conteúdos é restrito. Nem tudo o que consegue ver na Internet, nesses sites, está disponível também na TV. Apenas o que foi carregado para o servidor mantido pelo fabricante.

Tem, como ponto alto, a possibilidade de rápida migração para um modelo de oferta VDO (vídeo on demand). E como ponto fraco, a limitação da velocidade de banda para garantia da qualidade de imagem, principalmente no caso dos vídeos disponíveis apenas na modalidade streaming.

Como a TV Digital, os adeptos do modelo Broadband TV também começam a flertar também com o modelo da loja de aplicativos. Hoje, a Samsung anunciou, durante a IFA 2010, que passará a usar o sistema operacional Android em seus televisores. O que deverá facilitar, e muito, a criação de um ecossistema de desenvolvedores no entorno da loja que pretende lançar.

Apple TV – Tem os mesmos problemas do Broadband TV, com uma diferença: a maior disponibilidade de oferta de conteúdos, especialmente nessa segunda geração, recém lançada, que dá acesso a todo o catálogo do serviço Netfix. Todo o relacionamento com a Internet é feito através da Apple. E agora, com o modelo de negócio focado em streaming, faz todo sentido para uso em países onde a banda larga por cabo é abundante. Por isso mesmo, aqui no Brasil, um produto ainda restrito aos grande centros urbanos.

Google TV – É, de todos, o modelo que promete dar maior liberdade aos telespectadores, ao incluir um navegador internet, inclusive para a realização de buscas de conteúdo na Web. O modelo de negócio é o mesmo modelo baseado em busca que notabilizou o Google na Internet. Uma alternativa promissora e lucrativa ao Social TV, recém abraçado pela Apple para o iTunes com a rede Ping. O social tv também se faz presente, através do livre acesso a redes sociais, como o Twitter e a Last.Fm.

Que modelo tem mais chance e sobreviver?

Eu aposto em um futuro onde a TV Digital se casará com a Google TV. Dependendo do interesse por conteúdo, não descartaria também a Apple TV como uma opção diferenciada de consumo de vídeo, especialmente no modelo VOD. São caminhos que, na minha opinião, melhor promoverão a integração da internet com a TV, ampliando a experiência dos consumidores na sala de estar, com total liberdade, juntando o melhor dos dois mundos.

O Broadband TV é, de longe, hoje, o menos agregador, o menos convergente, no sentido original da palavra, embora pareça o contrário. Mas pode mudar rapidamente, se começar a praticar o mantra integração sim, exclusão não, pregado à exaustão pelo assessor especial da Casa Civil, André Barbosa.

Quem parece caminhar na direção desse modelo TV Digital aberta + Google TV é a Sony, parceira da Google lá fora, e já totalmente adaptada aos padrões da TV Digital terrestre aberta aqui no Brasil.

Hoje, na IFA, a Sony demonstrou um protótipo de TV com a Google TV integrada. O vídeo abaixo foi feito pelo site We Got Served. (http://www.wegotserved.com/). Confira.

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